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Sem sorte

Hoje não teve sorte. Ela foi ajudar a levar suas cadelinhas para castrar e, ao se aproximar do portão, sofreu uma queda. Por sorte, não bateu o rosto no chão, mas caiu sobre o braço, que agora dói intensamente. Além disso, ficou com ralados no cotovelo e no dedo. No momento, ela chora. Sente que ninguém se preocupa com ela, como se fosse apenas uma máquina que limpa a casa, faz comida e cuida de tudo. É triste sentir-se sem amor, sem alguém que realmente se importe.

Mãe Mulher

É tão bom ser mãe. Durante nove meses, o bebê cutucava a mãe na barriga, e quando finalmente nascia, era impossível não querer estar sempre junto. O neném chorava apenas quando estava molhado ou com fome e, logo depois, dormia a maior parte do tempo. Crescia rápido: engatinhava, dava seus primeiros passos, tornava-se criança e, em seguida, adolescente. Começava a estudar, ficava mais independente. Ah, que saudade dos meus nenês, dos bebês e das crianças. Hoje, a casa está mais vazia. Ela se alegra com a presença da neta, que passa algumas horinhas com a avó, e aproveita cada minuto ao lado dela. Ama ser avó e se lembra com carinho de sua própria infância, cuidada pela avó   que faleceu quando ela ainda era adolescente. Tudo mudou: as avós e as mães não são mais como antigamente. Tudo muda, tudo passa. Ela acredita que, um dia, toda dor que sente deixará de existir. 🙏

Dormir

Hoje foi aquele dia em que ela deixou a vida passar. Quanto mais dormia, mais queria dormir; assim, não via nada, não se estressava, sem preocupações. Mas então ela se acordava, pois precisava levantar, fazer o jantar, tomar banho, e mesmo tendo dormido o dia todo ainda sentia a necessidade de cumprir suas obrigações o mais rápido possível para dormir novamente. Hoje ela faltou à fisioterapia porque não estava se sentindo bem. No almoço, comeu um pacote de bolacha de leite com chá de erva-cidreira e passou o resto do dia dormindo. Ela sente que precisa de férias. Há mais de 20 anos, sente-se apenas como uma empregada na casa em que vive. Está cansada, muito desanimada, e se pergunta onde foi parar sua alegria e sua felicidade. Sinceramente, não sabe onde perdeu tudo.

Solidão

Ela se sente só em sua própria casa, mesmo cercada de pessoas, solitária, triste e amargurada. Sabe aquela sensação de pensar que ninguém a ama, e que aqueles que diziam amá-la a abandonariam justamente na hora em que mais precisava? Ela conversa com seus cachorros ; eles, pelo menos, a ouvem sem julgar. Fala com as paredes. Não tem assunto, nem amigos. Somente um Deus muito grande ainda a impede de cometer o pior. É por essa fé inabalável que ela não tem coragem de deixar a vida antes do tempo. Ela sente que está apenas esperando a vida passar — e ela está passando rápido. Tudo o que deseja é sair de onde está e viver sozinha, sem ninguém. Essa é a ideia que passa por sua mente constantemente. A saudade de sua mãe e das pessoas que ama dói profundamente. Ainda assim, prefere ficar só, porque sente que é a única que realmente ama.

Vida vazia

Ela se sente sem perspectivas, sem planos, sem sonhos, sem alegria — só vê escuridão. Os traumas que foram deixados estão todos aqui, amarrados juntos, e ela não consegue desfazer os nós. O passado está muito presente em sua vida, enquanto o presente ela mal percebe, e do futuro nem sequer espera. Sente dores na alma e dores físicas que nenhum médico pode curar. Não tem vontade de comer algo gostoso, nem de sair para passear, nem mesmo de fazer uma caminhada. Em cada junta do corpo, sente dor, e a sensação de cansaço é constante. Sem ânimo, tudo o que deseja é apenas descansar e dormir, como se isso fosse necessário para sobreviver a esse pesadelo chamado vida — uma vida vazia.

só pensando .

Seus pensamentos estão a mil. Ela está brigada com seus filhos e com a sobrinha que tanto ama — sua preferida, a mais velha. Ela ficou magoada pelo modo como a sobrinha falou, mas ainda assim a ama profundamente. A cabeça dela não encontra paz; não consegue se aquietar. Sentiu-se magoada com todos que disseram que sua briga foi por dinheiro — comentários que considera nojentos e injustos. Disseram que o que fez foi uma vergonha, mas ninguém vê o quanto ela está sofrendo. A dor é imensa, não apenas física, mas também psicológica. Ela está prestes a ir para uma clínica psiquiátrica para se tratar, antes que cometa algum erro consigo mesma. Como só tem sua psicóloga para conversar, resolveu escrever, na esperança de que algum leitor possa lhe enviar uma palavra de conforto sobre o assunto. Está muito triste. Pensa em arrumar a casa, mas não consegue devido às dores em todo o corpo. Ainda assim, prepara a comida, coloca a roupa na máquina e depois estende no varal. Para varrer e passar pa...

Triste porque ?

Quando a dor vai além do corpo Muitas vezes, ao desabafar, ela escuta exatamente o que já sabe: “Está reclamando da casa? Há quem não tenha nem onde morar...” “Está reclamando da comida? Tem gente que não tem o que comer...” Essas comparações não aliviam. Ela conhece as dores do mundo, mas quando fala da sua, não é para ouvir julgamentos — é para ser ouvida, acolhida. Se não há como ajudar, o silêncio compassivo é sempre melhor do que palavras que ferem. Mas afinal, por que ela está triste? Talvez seja por tudo: pela dor física que não passa, pela frustração de não conseguir fazer o que gostaria, pelo estado da casa, pelas reclamações constantes do marido sobre o quintal, sobre as paredes, sobre a vida. Ela se sente sobrecarregada. Carrega nas costas a preocupação com os filhos, com a casa, com os pensamentos que não param. Sua pele dói, sua alma chora, mergulhada em uma angústia sem nome. No íntimo, às vezes sente que seus dias já estão contados. Reconhece que a vida tem começo, meio ...