Proximas

Ela e a mãe nunca foram muito próximas. A mãe, sempre consumida pelo trabalho, deixou que a infância se desenrolasse ao lado da avó, até os sete anos. Aos oito, a mudança para São Paulo trouxe o convívio diário com aquela que deveria ser o porto seguro, mas a distância entre elas não se mediu em quilômetros — era um abismo silencioso, feito de ausências e silêncios.

Na escola, nas festinhas, em cada pequena celebração da infância, ela nunca encontrou a mãe. Não houve colo que a acalmasse, nem abraço que aquecesse, nem beijo que a fizesse sentir-se inteira. O carinho materno, quando surgia, era como uma estrela cadente: belo, raro, fugaz.

Somente na vida adulta, entre tropeços e pequenos milagres de aproximação, o cuidado e o afeto começaram a se insinuar. Mas o amor que não existiu no tempo certo deixou sua marca, profunda, silenciosa, como uma sombra que acompanha cada lembrança. E ainda que agora houvesse mais presença, mais ternura oferecida por ela mesma, a memória da ausência se mantinha viva, lembrando que nem todo afeto pode substituir o amor que se perdeu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desanimo

Romance complicado