Romance complicado
Ana Maria tinha apenas dezesseis anos quando conheceu Márcio, um homem de trinta e um. O destino cruzou os caminhos dos dois por meio da irmã dele, que tinha a mesma idade de Ana. Frequentavam os mesmos lugares, e não demorou para que fossem apresentados. Aquele encontro trouxe risadas, jogos de bilhar e taças cheias, como se o mundo, de repente, tivesse parado apenas para eles.
Mas a história não terminou naquela noite. Pelo contrário, foi apenas o começo. Com a chegada do fim de ano, Márcio decidiu levar Ana e seus pais à praia. A irmã mais velha dele também foi junto, e todos celebraram a virada bebendo até o amanhecer, adormecendo na areia, embalados pelo som do mar e pela ilusão de que a vida seria sempre uma festa.
Quando o novo ano se iniciou, os encontros tornaram-se rotina. Porém, a vida de Ana deu uma guinada brusca: expulsa de casa, ela pediu abrigo ao namorado. Passou a viver no quintal da casa onde os pais e as irmãs de Márcio moravam. O início foi marcado por olhares desconfiados e certo constrangimento, pois seu jeito explosivo incomodava a família. Com o tempo, contudo, as arestas se acertaram e ela aprendeu a ser mais discreta.
Ainda assim, entre fofocas, ciúmes e discussões, o relacionamento se tornou um ciclo de idas e vindas. Cada reconciliação parecia prometer paz, mas logo os gritos e cobranças de Ana se faziam ouvir novamente. Ela queria carinho, atenção, presença – e cobrava tudo isso de maneira intensa, quase desesperada.
O coração de Márcio oscilava entre a exaustão e o apego. Sua mãe, pouco a pouco, começou a se afeiçoar à moça, e até as irmãs se acostumaram com sua presença. Mas as brigas continuavam. E, em meio a elas, momentos sombrios surgiram. Ana, fragilizada, tentou se desfazer da própria vida engolindo remédios. Foi parar no hospital, sendo salva às pressas. Márcio, aflito, já não suportava tantas crises. Pediu que ela fosse embora.
Ana resistiu. Quando finalmente deixou a casa dele, o desespero a dominou de tal forma que, em um surto, tentou se lançar de uma ponte. Faltou-lhe coragem, e Márcio, movido por compaixão, foi buscá-la, levando-a de volta à casa da mãe. Mas nem isso bastou. Pouco tempo depois, Ana voltou a beber, misturou comprimidos, e mais uma vez foi parar no hospital. Suas ameaças, seus insultos e sua recusa em aceitar o fim passaram a perturbar a todos.
No auge da dor, ninguém mais a queria por perto. Ela se afastou, e o silêncio tomou conta. Márcio, enfim, sentiu sua ausência. A saudade pesou mais do que a razão, e os dois acabaram voltando, desta vez em outro ritmo: apenas namorados, vivendo encontros aos fins de semana.
E assim a vida seguiu, entre idas e vindas, como numa dança incansável. De fora, a família observava, impotente, compreendendo apenas o que tantos já haviam dito: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.” Afinal, apesar de tudo, Márcio e Ana sempre voltavam a se procurar, como se houvesse entre eles um laço invisível, ora feito de amor, ora de tormento.
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