Pode contar
Ela podia contar com ele.
Mesmo sem revelar tantas coisas que pesavam em seu coração, que amarguravam e ressecavam o fundo da sua alma.
Ela podia contar, nas horas mais solitárias da vida, quando o olhar, vagando ao redor, só encontrava deserto.
Podia contar, mesmo sem vontade de confiar em ninguém, ou certa de que não valia a pena confiar mais em alguém nesta vida.
Ela podia contar devagar, deixando que a boa vontade fosse surgindo, sem forçar nada, no ritmo em que acreditasse.
Podia contar durante as agonias que, de algum tempo para cá, não davam paz ao seu cansado coração, lembrando que o bom da vida consiste em encontrar um amigo.
Ela podia contar nas horas inesperadas, quando tempestades surgiam de repente e caíam sobre sua cabeça triste.
Podia contar para reaprender a cantar, para redescobrir a vida nas pequenas e serenas felicidades.
Ela podia contar para que ele a ajudasse a ter um rosto tranquilo, pelo menos na presença das crianças menores, que vivem dos sorrisos e olhares abertos.
Podia contar para receber auxílio no amargo peso da cruz que carregava.
Podia contar para descobrir, pela experiência, que a vida ainda guardava muita beleza, escondida, prêmio de quem se supera na dor.
Ela podia contar para triunfar, no ritmo vagaroso do dever, na cadência da paz diária, aprendendo a teimar com as teimas da vida madrasta.
Podia contar, sabendo que os caminhos da vida são largos, esperando os passos compartilhados de dois amigos que caminham juntos, na direção da conversa.
Ela podia contar para aprender a olhar ao alto, buscando a face de um Pai.
Mesmo para não se entregar aos desânimos e desencantos de quem vive cheia da vida, do começo ao fim.
Ela podia contar, e juntos venceriam, como anjo da guarda e seu pupilo.
Ela podia contar, lembrando que a vida pode ser bela, que são eles que criam as belezas, de dentro para fora, missão do coração, obrigação da fé.
Ela podia contar sempre, teimando consigo mesma, mesmo quando não queria saber de mais nada, ofendida ou descrente.
Podia contar quando, olhando para a frente, não tinha vontade de andar; e olhando para trás, temia o caminho percorrido.
Ela podia contar para que cada passo seu, cada dia da vida, cada hora dentro de cada dia, tivesse valor e beleza.
Ela podia contar, sabendo que havia alguém cuja missão era fazer companhia aos corações desacompanhados da vida.
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