1997

 






 Um ano em Santa Rosa

Em 1997, Mariana deixou sua cidade natal no interior de São Paulo, onde havia nascido e crescido até os oito anos, e decidiu morar no sul do país. Ela, o companheiro e o filho pequeno foram de carona com o irmão mais velho até a casa do pai dela. Chegaram sem nada além de algumas bagagens.

A casa era pequena, o frio era intenso, mas Mariana sentia-se feliz. Gostava do sotaque gaúcho, do chimarrão, do churrasco, da convivência com tias e primos. Tinha apenas um filho de quatro anos, mas logo no dia da chegada já viveram uma mistura de dificuldades e alegrias: venderam um aparelho de som para garantir a primeira refeição e, no dia seguinte, o companheiro conseguiu um emprego.

Pouco tempo depois, Mariana engravidou novamente. A casa do pai, que já abrigava o irmão mais novo, ficou apertada demais. Sem condições de se manterem ali, ela pediu ao tio para ficar em um quartinho vago. O espaço era pequeno e ocupado por uma enorme mesa que não podia ser retirada. Com o barrigão da gravidez, Mariana muitas vezes precisava dormir sentada porque o colchão não cabia no chão.

O povo local, simples e acolhedor, ajudava como podia. Mariana ganhou um fogão antigo, utensílios de cozinha e, com a ajuda da avó de uma amiga, conseguiu improvisar um cantinho de madeira no quintal de uma vizinha. Apesar das limitações, vivia momentos de alegria ao lado do filho, que adorava assistir ao programa Chaves, mesmo que fosse apenas da porta da casa da amiguinha.

Entre altos e baixos, Mariana também se reconciliou com o pai, de quem havia se afastado por uma briga antiga. Chegou a ganhar dele uma televisão enorme, mas logo o aparelho quebrou. Ainda assim, ela guardava carinho pelo lugar e desejava criar os filhos ali.

Um mês depois, a dona da casa onde estavam hospedados começou a exigir o pagamento de metade das contas de água e luz. Mariana se sentiu injustiçada, já que a senhora possuía eletrodomésticos e máquinas, enquanto ela lavava roupas no tanque com escova. A situação se agravou e terminou com a polícia sendo chamada. Foi nesse momento que a mãe, que vivia em Joinville, sugeriu que Mariana fosse até Santa Catarina. O irmão mais velho foi buscá-la, e ela não pensou duas vezes: aquela era sua chance de recomeçar.

Em Joinville, Mariana e o filho ficaram acolhidos pela mãe e pelo padrasto. O companheiro, no entanto, precisou voltar ao trabalho no sul. Sem dinheiro, acabou abandonado pelo cunhado em Porto Alegre, tendo que passar uma noite na rodoviária e pedir ajuda até conseguir uma passagem de volta. Depois de muitas dificuldades, reencontrou a família em Santa Catarina.

A maior surpresa de Mariana foi quando a mãe e o padrasto, prevendo a chegada do bebê, já haviam preparado uma cômoda repleta de roupinhas novas. A emoção foi tão grande que ela chorou ao perceber que, mesmo nas dificuldades, havia cuidado e amor.

Ali viveram até o nascimento de sua filha, Ana Carolina.

Mariana sempre refletiu sobre essa fase da vida. Para alguns, sua decisão de ir para o sul sem nada foi uma loucura; para outros, uma aventura. Para ela, foi um misto dos dois: dificuldades, aprendizados, lágrimas, mas também amor e lembranças que jamais seriam esquecidas.


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